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Brasigois Felicio - Diário de bardo
 


 

Brasilianices 2

 

 

... então chegou a abolição da escravatura,

mas depois aboliram a abolição.

 

                          *

Enquanto os do povo comem pão duro e azedo,

os que vivem à custa do voto de cabresto

vivem á larga, sem saber o que é trabalho

e sem derramar o suor do seu rosto.

 

Assim, em nome do povo e da pátria

vivem como vampiros, a serviço de si mesmos.

 

                          *

Nos fundões da amazônia a professorinha

tem de se sentar sobre um botijão de gás.

usa uma almofada que trouxe de casa.

 

Tem sorte por contar com o botijão da merenda,

senão teria de sentar-se no chão. Sem a merenda,

nem poderia dar aula: com a barriga a roncar,

não dá para ler – o barulho atrapalha.

 

Ao ver isto, Bilac, o poeta-cívico,

teria de refazer seu ufanismo: “Criança,

não verás país algum como este!”.

 

                          *

Se um médico ganha do governo

a bagatela de um mil e dez reais por mês,

o que dizer da professoria,

que não chega a cem réis?

 

                          *

 

Enquanto uns poucos se mantém fiéis

ao juramento de Hipócrates,

a maioria dos esculápios escutam

o sotaque da moeda, seguindo com voracidade

o mandamento dos hipócritas.

 

                         

 



Escrito por brasigoisfelicio às 09h22
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... Julio Bressane, que faz cinema de autor, fora do esquemão comercial, em entrevista, fala do padrão de mediocrização imposto à sétima arte - o mesmo que, no meu entender, contagia todos os setores da arte, literatura, música e artes plásticas. Palavras de Bressane:"O cinema de arte desapareceu no Brasil e no mundo. O que se discute é o naufrágio do expectador, os filmes naufragaram. O cinema e a cultura é no mundo inteiro mantido pelo Estado. O público naufragou ele não quer mais, está interessado em outra coisa. Eu sempre fiz um cinema pensando nele como ferramenta que auto transformação. Considero o cinema uma exigência muito grande e um esforço radical de auto transformação. Esse cinema vai existir para sempre, porque essas conquista e esses esforços existem individualmente e um dia vão ser coletivas. Agora, o cinema como experimento no sentido de cinema de linguagem… esse cinema desapareceu e isso aconteceu porque não tem mais público para ele. Hoje o que se tem é uma grande tirania e o público está enfraquecido para resistir. A capacidade de ver e ouvir diminuiu muito. É difícil se enxergar e pensar quando você está sentindo. Hoje está se fazendo um trajeto de mediocrização generalizada de tudo porque o dinheiro está de tal maneira organizado que essa questão da concentração da auto transformação e do autoconhecimento está fora das preocupações. Hoje a preocupação é a do salário escravo".



Escrito por brasigoisfelicio às 21h47
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Fui ao encerramento do V Festcine. Apenas por lá estar como "autoridade", representando a Ube-go, sentei na cadeira ao lado do cineasta Julio Bressane, que levou o prêmio por conjunto de obras do cinema brasileiro. Bressane pediu paciência ao público interessado em ver seu filme Erva de rato. Isto se quisesse captar seu significado profundo. De fato, foi uma pedreira engolir o Erva de rato, apesar da ótima atuação de Shelton Mello e da atriz principal (por sinal,muito bela, e que corpão - mas, putzgrila, não guardei o nome). A trama pode sugerir um caso clássico de perversão por voyeurismo, ou vícios quejandos. Mas quem não é pervertido atrás da máscara de bom moço, pacato cidadão, funcionário padrão, nerd ou cedeefe? O filme vai mais fundo, desnuda a máscara que se esconde atrás da máscara. Vai às profundezas do mito de Páris, personagem da mitologia por cujo amor ou posse deflagrou-se a longa e sanguinária guerra de Tróia, um conflito arquetípico...



Escrito por brasigoisfelicio às 21h44
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O GRITO DAS ILUSÕES

 

Brasigóis Felício

 

“Um bom propagandista é capaz de transformar

um monte de esterco em local de veraneio”.

(Bertolt Brecht)

 

O mercado é uma boca voraz

eternamente famélica

que devora a si própria

e tudo o que alimente

a sua fome de grana

 

Assim o marketing

segue a criar falsas necessidades

na indústria da criação de desejos

e o artífice da farsa sucumbe

aos anúncios que põe a lume

 

A ponto de achar que tem controle

sobre a máquina de triturar consciências

sendo ele mesmo moído

pelas engrenagens que sustenta

 

E quando o propagandista pensa

que está no comando,

vê que foi brindado

com o “apito dos afogados”

que vive a vender

aos outros náufragos.

 

 



Escrito por brasigoisfelicio às 22h16
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Estarrecedora e oportuna a reportagem de O Popular do último domingo, alertando para uma realidade para a qual todos, autoridades, sociedade devem se manter atentos: crimes ligados a drogas crescem na capital e alastram-se pelas cidades do interior.O crack vem em primeiro lugar, definido por autoridades policiais como uma praga anti-social. O pior é que legisladores e até mesmo autoridades do poder executivo, regiamente pagos com o dinheiro dos impostos (ou seja, das vítimas dos viciados criminosos) agora querem facilitar mais ainda a vida dos ditos "pequenos traficantes", responsáveis pelo inferno instalado em toda a sociedade. Quando apenas zumbis tornados sub-humanos pelo crack e outras drogas ilícitas - circularem pelas ruas e praças o medo será pesadelo constante.

 

Liberados de punição, os chamados "pequenos traficantes" apenas terão que tirar mínima fração de seus lucros, dando cestas básicas a instituições de caridade. Esquecem que o pequeno traficante está a serviço dos grandes, que jamais são pegos. Assim serão considerados filantropos do crime e da infâmia, enquanto espalham a peste do terror. Liberados estarão, para seguir a carreira criminosa, do tráfico internacional, tão facilitado em seu trabalho que pode ser chefiado até mesmo por detentos de instituições ditas de grande segurança (caso do mega traficante Leonardo Mendonça). Então será tarde para lamentarmos termos sido tão néscios que não pudemos perceber o terror anunciado – o triunfo dos monstros, incentivados pelos pacotes de “bondades” irresponsáveis. Bondades para com os criminosos, e maldades para com a sociedade, e até mesmo os usuários de drogas que a aterrorizam.   

 



Escrito por brasigoisfelicio às 17h54
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"A educação fica a meio caminho entre o sexo e a bolsa de commodities", escreveu ´Hélio Schartsman, na Folha On Line, a propósito do caso Geisy, da Uniban (ou Unitaleban), como ficou conhecida a instituição de ensino regida pelo primado comercial neocínico:"O freguês sempre tem razão". O expulsa desexpulsa, por motivos igualmente repugnantes, é revelador dos "elevados propósitos" que animam boa parte dos empresários que "investem" em educação. Por outro lado do blecaute moral, onde se escondeu dos holofotes da mídia a companheira Dilma,depois do apagão de terça-feira? Não seria ela a pessoa a dar explicações, já que gerenciou a "revolução do setor elétrico", até há poucos dias?Para quais calendas gregas mandou a pitonisa guia genial das verbas do Pac sua sacola cheia de certeza? Há pouco mais de uma semana ela sentenciava, em tom triunfalista, que o Brasil estava livre de apagões. Pior: o camarada Lula, saindo pela tangente decretou, em seu estilo "deixa que eu chuto~": não dá para comparar este apagão e o da era maldita de FHC: os dois aconteceram no escuro!". (Argh!)



Escrito por brasigoisfelicio às 16h42
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                                                               Retratos do Brasil

                                                                                                                             Brasigóis Felício

               

Há homens que nascem para ser fortes como rochas; o Brasil tem alguns com este perfil: José Américo, da Paraíba, Tancredo Neves das Minas Gerais. Teotônio Vilela das Alagoas. Levam em seu espírito indomável a força da terra. José Américo, conhecido como homem da areia, tinha alma de ferro. Teotônio, sonhador desde menino, quando viu a morte de perto, tornou-se mais vivo, em sua saúde civil, do que o fora antes do mau encontro com o câncer. E mesmo indignado com as velhas estruturas da injustiça, sentiu e falou que há uma pátria a ser amada e cuidada, e um povo a ser despertado para construir dias menos ingratos, e a justiça solidária em que merece viver. Tancredo morreu tarde ou cedo, mas como Juscelino Kubstchek, não conheceu o sentimento do medo.

 

                A contrapelo da gravidade dos instantes decisivos da política, tivemos em Chacrinha o palhaço animador de auditório, “velho guerreiro”, como é saudado na música de Gilberto Gil. Sem as tardes com o Chacrinha a alegria não vinha. O povo se acostumou aos seus bordões estranhos, muitas vezes sem sentido, ou de duplo sentido, com leve acento pornográfico: “”Alô Raimunda!”. E o jingle de abertura: “Oh! Terezinha! Oh! Terezinha! É um barato o cassino do Chacrinha!”. “Alô alô seu Inácio, faça o que eu digo mas não faça o que eu faço!”. Quem não se comunica se trumbica: a frase foi estudada em faculdades de comunicação – e foi destrinchada em papos cabeça de intelectuais. De fato, quem não se comunicou se trombicou. Muita gente se escafedeu em sua incomunicação. Por anos a fio, com suas dançarinas escolhidas a dedo, intituladas de chacretes, com sua alegria viva e popular, com rompantes de Godard, ele veio para confundir, e não para explicar.

 

                Veio do nordeste a mais antiga alegria brasileira a animar auditórios no Rio maravilha – seja pela voz maravilhosa de artistas saudosos, ou nas figuras caricatas do animador de auditório, a buzinar cantores desafinados. Assim também na arte do canto, com dois Luizes geniais – Gonzagão e Vieira, depois Dominguinhos, Fagner, José e Elba Ramalho, trazendo uma poesia nova, extraída das sensibilidade do cancioneiro nordestinado. Na literatura, com Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Josué Montello e Rachel de Queiroz. Até a estranha Clarice Lispector, que viveu sua infância no Recife de Manuel Bandeira, mas foi fazer carreira no Rio de Janeiro, para ser escritora universal, sem geografia ou paisagem que não fosse a da alma.

 

                Quase tudo maravilhoso no Rio maravilha veio das paisagens do nordeste ou do norte – no último caso, com Thiago de Mello, com sua poesia libertária e engajada. Do Recife, com as pontes da Veneza brasileira, a falar da vida severina dos sobreviventes da caatinga, veio João Cabral de Mello Neto. Também das pontes e becos recifenses vem um engenheiro que não deu certo, de fracos pulmões, a precisar de pneumotórax e de um tango argentino para a iminente morte. Que, mesmo cortejada em poesia, demorou para chegar ao solteirão empedernido. Nisto Manuel não dei bandeira, e se fez estrela da vida inteira.

 

                Para não dizerem que não falei da Bahia de todos os santos, lembro Jorge Amado, com seu cacau, suor, e o carnaval da luxúria brejeira de Gabriela Cravo e Canela – vindo depois um retrato em branco e preto do povo brasileiro, traçado pelo talento de João Ubaldo Ribeiro. À parte isto, não esquecer o grande sertão:veredas, um retrato universal do sertão que na alma de todo vivente de lugar onde viver é sempre perigoso.

 

Falar nas Minas Gerais é lembrar do anjo gauche de Itabira, noventa de ferro nas calças, quase sem por cento de ferro nas almas, a ponto de chegar a indagar: “E agora, José/o povo sumiu/a noite esfriou/o dia não veio/não veio a utopia/e tudo acabou/e agora, você?/Você que é sem nome/que zomba dos outros/você que faz versos/que ama, protesta/ e agora, José?”. Dando os trâmites por findos, vou encerrando estes dizeres, temendo a desmemoria/sendo certo o esquecimento, perante a vastidão de tudo certo, a escorrer pelas linhas tortas do existir humano.  



Escrito por brasigoisfelicio às 22h48
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ACADEMIA DA PESTANA

 

Brasigóis Felício

 

Em meio ao mar de filigranas

de certos palestrantes bacanas

não é possível resistir

à sedução da pestana.

 

Ao escutar o tom monocórdico

de horas de algaravia, é impossível

não cair nos braços de Morfeu.

 

Vai um pirulito do comendador Pirlimpimpim

a quem resistir, e não dormir.

em academias dos imortais das letras

discurso de menos de duas horas

está em promoção de liquidação da platéia.

 

Logorréia que dure menos de hora e meia,

está pela hora do grito, em desespero de xepa

em fim de feira popular. Assistir,

sem tirar um cochilo, quem há de?



Escrito por brasigoisfelicio às 17h30
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                                               O poeta toma toddynho

                                                                                              Brasigóis Felício

 

O poeta quer levar para o pecado a dona que tem mais horas de cama do que de mucama. Como sucede aos bêbados, sobra-lhe desejo, mas falta-lhe potência para galvanizar a vontade em acontecimento. Gastou, à toa, nos bares da vida, a vontade que tinha de amar uma mulher. Entre o esgar da vontade sem poder, e o alto conceito de garanhão dos trópicos, que tem de si mesmo, falta-lhe a loucura de Hitler, para decretar, por dois milênios, a glória do III Reich.

 

            Com meia dúzia de gordas matronas e antigas literatas à sua volta, torrencial e pletórico, verseja, caudaloso, e amazônico, Niágaras de palavras, à guisa de cantadas românticas. Mas eis senão quando... chegam os malandros, com seus pés de veludo,com a leveza de saltimbancos, e já vão se engalfinhando com as ninfas do bardo.  Estando o poeta em crise de abstinência, pois que há muito deixou de ser escravo do copo, padece de fome crônica: de duas em duas horas tem que pedir licencinha para ir à lanchonete, onde emborca um toddynho feito no capricho. A pretexto de “tirar a água do joelho”, ao ver a batalha perdida, vai saindo de fininho, e bate em retirada: “Tá na minha hora, receitada pelos médicos. Como de hora em hora o Brasil piora, tenho que tomar meu toddynho com bolo de baunilha”.

                                               O dia D do Flamengo

           

Entreouvido no bar: “Hoje é o dia D do Flamengo. Ou levanta, ou se enterra, de vez!”. Ouvindo o desabafo, pensei: é incrível como o povo, sempre tão goleado por todos os desgovernos, preocupa-se, até quase morrer do coração, com a sorte ou o azar do Flamengo. É como se, rebaixado o seu time preferido, tudo em sua vida viesse abaixo, como as torres gêmeas do WTC.

 

            É como se um bando de cartolas (abaixo de qualquer suspeita) ou as caneladas dos ídolos provisórios lhes valessem mais do que cidades inteiras, e fossem mais importantes do que eles mesmos. É como se uma sessão de caneladas tivesse o poder de consertar os desmandos dos que transformam o mundo em lugar cada vez mais perigoso, feio e sujo.

 

                                               O poço de vaidosura

 

O visgo (ou o vício) que vem do verbo poético, também contaminha o discurso dó política, e põe pó de mico no bumbum vetusto e solene da diplomacia. Por ex:em uma confusão bananeira, vai o chapeludo e retumbante Zelaya comer sua marmitex com arroz, feijão e biscoitos, sentado em solo esplêndido da pátria brasileira. Sem ser asilado nem refugiado, faz seu escritório político nosso solo diplomático. Ele e seus sequazes negam partilhar as marmitas com as pessoas que os abrigam: "É só para os hondurenhos", dizem: é tudo nosso!

Sendo mero abrigado, Zelaya se vê desobrigado de respeitar a casa que lhe deu guarida. Casa que ele invadiu, em acaso combinado com Lula, Chavez, e o camarada Morales. De nossa embaixada ele faz palanque político.cacunda.Tudo resultado da diplomacia bolivarista do camarada Amorim e do segundo chanceler, o Garcia Top Top, que tanto se orgulha de ser embaixador de ditadores e déspotas sanguinários, tipo Fidel e Kadaf. Pelo andar da carruagem, difícil saber quem puxa com mais vontade o cachimbo da vaidade: se nosso Grande Irmão boquirroto, ou se o seu chanceler, visto por seus pares e ímpares como um poço diplomático de vaidadosura, que pode acabar em nitroglerina pura. Como estamos a ver no conflito internacional de Honduras, a que fomos levados pelos rompantes da retórica bolivarista.  



Escrito por brasigoisfelicio às 11h10
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Aforismos desaforados

 

Brasigóis Felício

 

1.      Meliante é quem vive a amealhar

o que não é seu?

 

2.      Quem muito participa de simulados

acaba por ficar dissimulado.

 

3.      O ego pode tornar-se tão austero

que produz infernos por toda parte

pensando ser governador do céu.

 

4.      O ego espiritual toma os meios pelos fins.

Vestido em austeridades, o Diabo ministra missas

com devoção impecável. E não há quem

com ele se alinhe, em ministrar sacrifícios

a seus seguidores, reservando  a si os benefícios.

 

5.      Diz-se que é mulher-corrimão

aquela em que todo mundo passa a mão.

 

6.      Nossos heróis de vilanias e infâmias

recebem medalhas por vergonhosas retiradas

e nossos Viscondes ganham estátuas de portentos

por derrotas fragorosas.

 

7.      Quando a riqueza dos ricos

descola-se cada vez mais do trabalho,

é sinal de que a economia desce a ladeira

da consciência invertida.

 

Em um mundo assim, os ricos

se fazem cada vez mais ricos,

e os pobres se tornam cada vez mais pobres.



Escrito por brasigoisfelicio às 22h30
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O REITOR DESCALÇO

 

Brasigóis Felício

 

Roberto Crema, que nirvanou

ao fitar a lucidez

dos olhos de Pierre Weill,

virou reitor descalço:

 

tirou sapatos e meias

sem chocar a platéia inteira

pompa e circunstância

são valores que não guarda

 

Vive em profunda simplicidade

em seu amar a verdade

e defender a paz

 

Em cirandas de amizade

dança como criança

pois sabe a viagem do humano

é efêmera como um raio

na dança infinita da Vida

 

              II

 

Um dia o causídico

perdido no labirinto

das demandas do ter

decidiu não viver

em tão próspera miséria

que incautos invejam

 

Assumiu o risco

de deixar a infelicidade crônica

uma freirinha, um anjo posto em seu caminho

ao ver que a tristeza de não ser ele mesmo

estava a mata-lo devagarinho,

vendo-o dizer que a psicologia o arrepiava,

disse: “Vai, menino! Vai fazer o que te arrepia!”.

 

Já sabendo que seria sublime,

o poeta de alma enluarada

foi lá e fez. E em seu reitorado

mantém-se eterno menino

a andar descalço

pelas veredas da Verdade

 

Hoje segue amando, e bem amado

em seu poder desarmado

de cirandeiro da paz.

 

 

 

 



Escrito por brasigoisfelicio às 21h43
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                                               Moendas do globaritarismo

                                                                                                          Brasigóis Felício

 

“O homem deixou de ser o centro do mundo. O centro do mundo hoje é o dinheiro”. (Milton Santos). Assim a água vem para o lucro uma vez que, sendo conhecida por sua marca, passa a ser um produto. Pelo qual se irá cobrar mais caro, a cada dia que passa – e boa parte do mundo de hoje não pode mais pode ter acesso a água que não seja paga.

 

            Tal inversão de caminhos, com o Homo Sapiens transformando-se no carrasco da sua casa planetária, a única, em todo sistema solar, onde pode existir vida tal como a conhecemos, resulta do triunfo do “globaritarismo”, uma forma globalizada de totalitarismo que segundo o famoso geógrafo baiano, acima citado, incentiva a formação de novas formas de totalitarismo social. O consumismo compulsivo, tornado uma pandemia emocional, é uma delas, chegando a constituir-se em um novo totalitarismo., que pode também ser chamado de neo-darwinismo social.  

 

            Com o triunfo deste avassalador modelo de fundamentalismo invisível aos olhos desatentos, grandes interesses financeiros propagam o conceito de que o povo nada pode fazer por si mesmo – assim os oligopólios multinacionais podem continuar a explorá-lo e a dominá-lo, com as armas massivas da ciência da criação de desejos, a que se costumou chamar, eufemisticamente, de marketing – uma ciência que não tem ethos nem saber que lhe seja próprio, apenas vampiriza, manipula e apropria-se de conhecimentos de áreas ligadas aos labirintos da mente, reelaborando-as e manipulando-as, para alcançar seu objetivo maior, que é o lucro maximizado, não importando o seu custo humano, os danos que provoca aos ecossistemas da natureza.

 

            Permanecemos em atmosfera de sonhos enquanto acreditamos que um futuro é possível. Como reação ao domínio da máquina de gastar gente, no dizer de Darcy Ribeiro – na verdade a máquina agora tem mais pressa, e se destina a matar, literalmente. Uma reação silenciosa, mas poderosa, eclode, como incêndio criador, de atores invisíveis, e que jamais foram levados em consideração.

 

Tal globaritarismo, imposto aos povos de todo o mundo, por uma decisão maquiavélica das corporações e esquemas de domínio financeiro e político, é imposto aos pobres como um paraíso ao contrário: os de baixo ficam cada vez mais abaixo, e os que se colocam no topo da pirâmide elevam-se cada vez mais. De tal modo isto se globalizou que, segundo Josué de Castro, a humanidade hoje está dividida entre dois grupos: o grupo dos que não comem, e o grupo dos que não dormem. O primeiro não dorme porque tem fome, e o segundo não pode dormir, com medo dos que não comem.

 

Milton Santos enfatiza que tais agentes coletivos de transformação atuam de baixo para cima, por meio de formas solidárias de ação, em movimento que vai na contra-corrente das mídias do capital financeiro, que cronifica a reprodução das formas de violência e alienação do ser humano, fazendo com que viva e atue como inimigo de sua própria espécie, além de se tornar algoz de nossa casa planetária.

 

 

 

 

 

 

Não por acaso a água é vendida como produto, a quem possa pagar pelo melhor preço, e não um recurso não renovável da natureza, acessível a todos os que dela precisam para trabalhar e viver. A água é vista e colocada como um ativo econômico, por parte de empresas públicas ou privadas, que a têm como ouro azul. Tudo é feito em nome da lógica financeira, sem que sejam levados em conta fatores essenciais à sobrevivência da espécie, como a cooperação e a solidariedade, princípios da lei natural, que rege o funcionamento de toda a natureza.  

 

“Um mundo assim já não está por conta de Deus – já está funcionando por conta do Diabo”, já o disse o coronel Ponciano de Azeredo Furtado, truculento e atrabiliário personagem do romance O coronel e o lobisomen, de Carlos Cândido de Carvalho. Deve haver um mundo onde o medo, a violência e a exploração do homem pelo homem não sejam o prato do dia, imposto aos povos do mundo como o salário da desumanização. Um mundo sonhado pelos poetas visionários, nas utopias do paraíso perdido, como nos diz o poeta português Eugênio de Andrade: “Deve haver um lugar onde um braço e outro braço/sem mais que dois abraços/ no ardor de folhas mordidas pela chuva/as manhãs perto/nem que seja de rastos/”.   



Escrito por brasigoisfelicio às 12h25
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MUDANÇA INFINITA

 

 

Brasigóis Felício

 

 

Dizemos que não se fazem

mais dias como antigamente

como a querer que o ontem

permaneça o mesmo – hoje

e para todo o sempre.

 

Como se o tempo não fosse

eterno mutante, indiferente

às dores e transes

de nossa longa miséria:

a de esperar que sejam veras

as nossas pobres quimeras.

 

 

 

 



Escrito por brasigoisfelicio às 15h21
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CONVOCAÇÃO AO POETARIADO

 

Brasigóis Felício

 

“Se Vinícius se Moraes existiu,

tudo é permitido”. Assim falou

o personagem de uma peça teatral,

em meio a uma suruba.

 

Quanto a mim, acrescento: Se

o poetinha Vinícius de Moraes existiu,

e deu certo, sendo o branco

mais preto do Brasil, tudo é certo,

nada é errado, a não ser

o mundo dos engravatados

a quem ele deu uma banana

para abraçar muitas bananas,

agarrado ao violão, e a todas

as mulheres bonitas do mundo

(pois que a beleza é fundamental).

 

Poetas, namorados, correi,

de braços abertos, rumo às virgens loucas,

que já não existem, ou às loucas aventuras.

se o poetinha existiu, sobreviveu

e não se vendeu, depois da hora espandongada

em que todos os bares sorriem para a cidade,

todas as leis estão revogadas

- e tudo valerá a pena, se a alma não for pequena!

 

 



Escrito por brasigoisfelicio às 21h48
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ALEGRIA TRISTE

 

 

Brasigóis Felício

 

“Limitar é humilhar o infinito”.

(Sandra de Sá)

 

 

Limitar é pensar que se pode

colocar coleira no cosmo

fazer o Amazonas

caber em um copo

engessar em palavras

o instante quântico.

 

Não deu mais para continuar

a farsa da alegria triste

que fez do fracasso humano

um dolorido sucesso artístico

 

A quem teve a infância roubada

coube a ilusão colorida

de fazer da aridez dos dias

um parque de diversões.

 

 

P.S. À alma de Michel Jackson, que

sempre cantou: “Onde perdi a minha infância?

Alguém viu a minha juventude?”. 



Escrito por brasigoisfelicio às 21h20
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