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Brasigois Felicio - Diário de bardo
 


Três poetas em conluio

Luiz de Aquino

(transcrito do jornal Diário da Manhã

3/06/09

 

         Abstenho-me de contar quotidiano, de analisar fatos e façanhas. Hoje, resumo meu texto a um poema decorrente, produto da leitura de dois pomas, dois poetas. E aqui vão as nossas vozes, a começar pela professora e poetisa Sílvia Neves, de Porangatu, Goiás:

 

         “SILÊNCIO - No silêncio da cidade pacata / Aguça-se a percepção / Da melodia da existência / Contrapondo-se à essência // Na noite não se ouve ruídos / Enquanto o corpo descansa / A mente grita a ausência

Do barulho cotidiano: // O disse-me-disse / Da injustiça muda / Do desejo reprimido / Do suor expelido // Da doença que abrasa / Do desempregado sem casa / Do idoso que chora / Do visitante que vai embora // Do homem sem dentes / Da dama cega ardente / Do cavalheiro surdo / Da boiada no sol quente // Do som do berrante / O cansaço do estradeiro / Do mendigo errante / E a labuta do boiadeiro // Da moça que namora / Um amor que aflora / Com rapaz anda de bonde / No jogo do esconde- esconde // Da mulher que trabalha /No varal roupas anis / A animação do cachorro / Meio ao canto dos bem-te-vis // Do zunzunzum do mosquito / Um bando de periquitos aflora / Um despertar pelo canto do galo / No frescor da afetuosa aurora // No silêncio / A vida prossegue / Numa luta sem voz / Suave.. / Atroz...”.

 

E aí vem Brasigóis Felício, poeta em tempo integral, analítico em profundidade das coisas humanas, incluindo-se aí a múltipla alma do poeta Pessoa...

 

         “O ESTEVES DA TABACARIA - Queria ser como / o Esteves da tabacaria / - sem poesia / e sem metafísica. Não como / Fernando Pessoa, o poeta, / que lá ia comprar / o seu fumo e a sua palha. // Olharia a pedra / e veria a pedra / e não uma forma imóvel / do rosto de Deus. // Se eu não fosse tão cheio / de certezas, tão carregado / de livros e medos, / seria simples e humilde, / como os que renunciaram / à vitória e à derrota. // Sabendo que a verdade / é uma terra sem caminhos, / seria tão silencioso / como as folhas na relva, / ou a solidão da neve / ou tão vasto como as aves / que não precisam de escadas / para voar na amplidão do céu. // Passaria a vida entregue / à minha desimportância / a fumar minha cigarrilha / na calçada do nada, / dando bons dias aos passantes / sem me sentir consumido / pelas moendas do tempo. // Passaria pelos dias /sem lamentar a passagem / da vida que viria / se tudo não tivesse dado em nada / como tudo dá, quando tudo acaba. // Seria um ser / tão sem destino / que todos os caminhos / levariam a quem Eu Sou. // Passaria pelos outros / mortos vivos como eu / indiferente ao vazio em que vivem / sem ter que cumprimentar os vizinhos / por mero protocolo / de civilizado aparente. // Não seria tão irônico e sibilino / como um cão filosófico / a vagir teorias pós-tudo / como animal raivoso a rosnar / em defesa de seu osso. //  Se eu não fosse tão cheio / de certezas, tão carregado / de livros e medos, / seria simples e humilde, / como os que renunciaram / à vitória e à derrota. // Sabendo que a verdade / é uma terra sem caminhos, / seria tão silencioso / como as folhas na relva, / ou a solidão da neve / ou tão vasto como as aves / que não precisam de escadas / para voar na amplidão do céu”.

 

Abelhudo, cheguei com a minha colher-de-pau...

        

“MEU CANTO À SÍLVIA - Os versos de Sílvia silvam / no silêncio dos meus tímpanos / vetustos (por isso, cansados). // Os versos de Sílvia / têm cores de madressilvas / e rostos comuns de pessoas / sonantes, suadas, silentes. // Verseja a mestre-mestra / de letras e formas de artepalavra / e desperta olhar de analista / do poeta em brasa / que não dorme, nem é cinza. // Cinza é a cor da minha cabeça, / cabeça armazém de ecos / em meses repetidos tantas vezes, / somatório / de dores e de flores, que não se é poeta / impunemente, nem esteio, / nem dormente. // Meu nariz não aceita, minhas vias / de ares e aromas não suportam. Por isso, abro mão / do Esteves e da cigarrilha, beijo Pessoa, abraço / a brasa do poetamigo sulgoiano e elevo / salvas à Silvia, a nevar no cerrado / nortegoiás.

 

Um beijo, L.deA. (Sílvia, permita-me sempre a revisão).

 

 

Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras (poetaluizdeaquino@gmail.com). Blog: http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com

 



Escrito por brasigoisfelicio às 09h52
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